terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

                                                 UM POUCO DE HISTÓRIA, MÚSICA E CULTURA

A imagem pode conter: 9 pessoasAs bandas de música tiveram seu início no Brasil-Colônia com o uso dos terços ou ternos, os primeiros conjuntos, incluindo sopros e percussão, usados nos primeiros agrupamentos administrativos, nas cerimônias oficiais e religiosas. Incluíam as charamelas, espécie de ancestral das clarinetas, serpentões, um tipo de corneta e a sessão de bateria. Daí o nome terço, por conter os três naipes que hoje se conhecem como madeiras, metais e percussão.
Mantidos nas cidades ou principalmente em unidades militares, esses conjuntos foram por mais de dois séculos os sonorizadores dos eventos da Colônia, ao lado dos cantadores de feira e dos coros religiosos, até que, em 1808, chega ao Brasil a Família Real, encabeçada por D. João VI. Ora, a presença das tropas de Napoleão em Portugal fez com que se procurasse salvar não só a nobreza e bens materiais, mas também o que de melhor havia em humanidades. Assim, veio com a comitiva oficial a Banda da Armada Real, um conjunto ao que consta de competência reconhecida em toda a Europa, fazendo uso de instrumentos recentes, como a própria clarineta, o oficleide e o
hélicon, na função de baixo.
O impacto do conjunto foi tremendo, a tal ponto que, pouco tempo depois, os grupamentos militares já reivindicavam a criação de bandas atualizadas para o serviço de caserna e apresentações públicas.
As cidades, através de seus clubes e sociedades, invejaram tais conjuntos e quiseram criar os seus próprios. Daí nascerem as primeiras sociedades musicais.
Muitas vezes tais conjuntos nasciam ligados a partidos, correntesde opinião, bairros e até pelo corpo de operários de determinada profissão, como é o caso, no sertão, das filarmônicas de ferroviários e, no Recôncavo, de trabalhadores de usinas de açúcar, como foi o caso da Sociedade Muzical 5 Rios, em Maracangalha. Canalizada para a música das filarmônicas, surgiu então a paixão social, semelhante ao que ocorre na política ou em torcidas de futebol, que levaram a sérios conflitos na maioria das cidades onde havia mais de uma agremiação.
Muitas vezes, esses conflitos se originavam de uma travessura musical, que envolvia competência: o roubo de composições. Ora, o compositor criava a obra para ser estreada em determinada data, na festa da cidade, da padroeira, etc. Já temendo o plágio, a banda ensaiava às escondidas, muitas vezes no campo. A banda adversária mandava um espião, ouvinte competente e escritor de música, que roubava a obra, no momento em que copiava em uma folha de música suas linhas principais de canto, contracanto e marcação. Com esse material, o outro mestre reorganizava a instrumentação, ensaiava também em segredo e no dia determinado surgia tocando em primeira mão a composição da corporação rival.
Arrah... isso já deu tiro em muitas cidades. Em Mucugê, na Chapada Diamantina, o compositor Júlio Cezar Souza perfurou várias vezes com um revólver a campana da tuba da banda adversária, que furtara dessa maneira um dobrado que havia feito para a Filarmônica 23 de Dezembro. Em Cachoeira, o furto da Inglesina, scherzo marciabile, de Tranquilino Bastos, da Lira Ceciliana, também resultou em tiros.
Outra forma de conflito, dessa vez construtivo, se dava na área musical: duas bandas adversárias, em dois palanques, disputavam a que executasse mais “harmonias”, até que, esgotado seu repertório, uma das bandas se retirava. Em Alagoinhas, uma dessas disputas, entre a Euterpe e a Lira, prendeu as pessoas na praça, em um domingo, de nove da noite até a madrugada, pois nenhuma das duas se dava por vencida e puxava mais uma música.
Dos militares herdamos o fardamento, depois tornado colorido e diferenciado, a disciplina, a leitura musical e o dobrado. Nascido marcha militar, tornou-se estilo nacional, quando os mestres lhe adicionaram volatas (cadenzas), contratempos e breques incompatíveis com as evoluções dos quartéis. Ainda assim bons dobrados de
Antonino Manoel do Espírito Santo são hoje os hinos da Marinha (Dobrado Cisne Branco) e da Infantaria (dobrado 220, a Canção do Soldado).
Há de fato uma espécie de unidade estilística e um estado de espírito comum em filarmônicas do Amazonas ao Rio Grande do Sul. Compositores como Pedro Salgado, Anacleto de Medeiros e Naegele são referências nacionais, ao lado de baianos como Heráclio Guerreiro e Estevam Moura. Na Bahia, as cidades do Recôncavo foram naturalmente berço das principais sociedades musicais mais atuantes, porém não houve cidade forte como Caetité, Juazeiro ou Lençóis, que não produzisse seu grande compositor e sua grande banda de música. Toda cidade se esforçava para manter uma, duas ou até três filarmônicas, algumas integradas só por mulheres, sempre rivais entre si, nos quais, salvo alguns momentos destrutivos, a disputa gerava mais e mais músicas novas e bonitas.
Quando as diferenciações sociais foram jogando em lados opostos as classes populares e médias, quando as periferias das cidades se tornaram mais habitadas que o campo, quando o crescimento econômico e o progresso vieram de forma caótica e injusta socialmente, as filarmônicas entraram em crise, é verdade, mas em muitas cidades passaram a ser a verdadeira salvação para jovens humildes, sérios e talentosos.
FONTE: Dantas, Fred. Teoria e leitura da música para as filarmônicas. Salvador: Casa das Filarmônicas. 2003.144 p.: il.
FOTO: Banda de música de Carnaúbas-RN, 1898 (Foto histórica), retirada da comunidade "Só dobrados" do Orkut.com

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